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Quem foi  Madre Maria Angélica da Eucaristia?

Nossa Mãe, Madre Maria Angélica da Eucaristia, nasceu em Grão Mogol, norte de Minas Gerais, em 23 de dezembro de 1931, recebendo o nome de Sophia Maria Esteves de Mello. Grão Mogol é uma cidade próxima a Montes Claros, notável por sua beleza natural, com muitas pedras preciosas, rochas, e rios. Sophia Maria, “pedra” de raríssimo valor, nasceu neste cenário de fecundidade natural, fato que marcou profundamente seu caráter humano. Era amante da natureza, do belo e de uma imensa fortaleza!

Em certa ocasião, o nosso saudoso capelão Padre Henrique Munaiz, caracterizou-a como herança das “rochas” naturais de Grão Mogol.

Sophia Maria nasceu num lar feliz, formado por seus pais, Ruy Mello e Maria Florinda Esteves e seus irmãos. Residiam em uma fazenda. Seu pai, o senhor Ruy Mello, trabalhava no cartório. Eles tinham uma vida financeira razoavelmente tranquila. O casal teve oito filhos, Sophia Maria foi a quinta filha do casal. Todos foram educados na fé Cristã. Desde a infância, a pequena Sophia foi repleta de dons naturais e de uma singela beleza física. Devido a sua discrição, sabemos poucos detalhes sobre sua vida. Ela sempre procurava ser canal da graça onde as pessoas pudessem encontrar com o Divino mestre.

Em Grão Mogol recebeu o Batismo em uma belíssima Igreja histórica, construída pelos escravos. Residiu nesta cidade até a idade de aproximadamente sete anos, quando eles mudaram para uma cidade próxima e maior, Montes Claros. Nesta cidade ela passará toda sua infância e adolescência. Foi matriculada no Colégio Imaculada Conceição de Berlaar, ambiente que será um marco na sua formação cultural e religiosa. O colégio era dirigido pelas irmãs da Imaculada Conceição, oriundas da congregação nascida na Bélgica.

Madre Maria Angélica

Espírito empreendedor

Desde a infância ela demonstrou um caráter reservado, simples, alegre e já possuía um notável espírito empreendedor. Residindo no centro de Montes Claros, nas mediações do mercado central, chamava-lhe a atenção às senhoras que vendiam as frutas e verduras nas bancas. Ela com aproximadamente oito anos, não teve dúvidas: resolveu montar seu próprio negócio. Colheu alguns tomatinhos no quintal da casa colocando-os em uma cesta, escolheu seu “ponto” no mercado, estendeu um paninho no chão e se sentou para iniciar seu empreendimento de vendas. Para sua surpresa, passou alguém da família e antes que ela ganhasse algum trocadinho lhe perguntou: - “Sinhazinha, o que você está fazendo aqui? Vamos para casa!” Ela juntou seus pertences e partiu um tanto frustrada. Sinhazinha era o nome carinhoso pelo qual a família lhe chamava.

 

Conta-se que sua mãe, quando um dos filhos adoecia, pedagogicamente procurava dar um presente. E dizia: “quando a gente presenteia um doente ele fica curado”. Este traço de cuidado com os enfermos Nossa Mãe assumiu bem, colocando-o em prática no transcorrer de sua vida.

 

Ela gostava muito de requeijão. Para expressar seu desejo, ela ainda bem criança sem saber fazê-lo como convinha, dizia graciosamente: “Mamãe, estou com fome de requeijão.” Ela tinha facilidade e afinidade com sua mãe, contava-nos com simplicidade. “De mamãe eu não escondia nada!”, dizia ela. Este amor filial por sua mãe, com certeza a ajudou na construção do seu caráter um tanto materno para com as pessoas e, ao mesmo tempo, para a sua profunda devoção a Virgem Mãe do céu.

Primórdios da vocação religiosa

Seguiu uma infância tranquila. Na fase da adolescência ela participava do grupo das filhas de Maria. Ministrava catequese, e como era bem comum naquela época, tinha o seu diretor espiritual. Até então, embora fosse muito piedosa, não pensava em se consagrar a Deus. Desejava sim trilhar o caminho da santidade e procurava com afinco colocar em prática o necessário para permanecer nesta senda.

Como qualquer jovem de sua época, gostava de festas e de se arrumar. A sua dança preferida era o tango. Ela resumidamente nos contou que, estando em uma festa no então Automóvel Clube (local de festas geralmente usado pela sociedade da época), dançando alegremente tango, teve um toque especial da graça, onde tudo aquilo que se lhe apresentava como belo e bom era tão fugaz. Seu coração desejava algo que durasse para sempre, que fosse eterno. Onde poderia encontrar este Amor? E no seu próprio interior encontrou naquele momento a resposta: Deus!

Só o Amor de um Deus pode me satisfazer! Este toque da graça a impulsionou desde então a se entregar por inteiro a Deus. Entendeu que Ele a convidava a uma consagração plena e profunda do seu ser, começando desde então o seu caminho vocacional.

Conhecendo o Carmelo

Aos poucos foi discernindo com a ajuda do seu diretor espiritual onde o Senhor a queria. Embora estivesse bem próxima das religiosas do Colégio Imaculada, intuía que não seria naquele estilo de vida que Deus a chamava, porém ainda não sabia onde seria. Até que providencialmente chegou às suas mãos um recorte de jornal, com uma reportagem sobre o Carmelo Nossa Senhora Aparecida em Belo Horizonte. Mesmo sendo resumido o artigo, ela se encantou com a vida contemplativa, vida orante de abnegação e sacrifício. Procurando os meios para conhecer melhor, começou a ler os Santos do Carmelo em especial Santa Teresa de Lisieux, e a corresponder com Madre Gema, a fundadora e priora do Carmelo da capital mineira.

Sua vocação foi se consolidando. Foi visitar o Carmelo e ao se aproximar, encontrou providencialmente sua prima, Vanda Mello, que estava vindo justamente de lá, movida pelo mesmo ideal. Vanda, posteriormente no Carmelo, terá o nome de irmã Maria Gertrudes.

Ficou encantada com tudo o que presenciou. E conversando com a madre Gema, esta lhe perguntou se ela já havia lido sobre algum Santo do Carmelo. Ela respondeu que havia lido sobre Santa Teresinha. Madre Gema a contestou: “Muito bem minha filha, você conheceu o Carmelo por fora. Vou te entregar um livro que te mostrará o Carmelo por dentro!” E lhe indicou a vida de Elisabeth da Trindade. Madre Gema, em sua santidade e sabedoria havia intuído qual a senda espiritual daquela alma, pois Sophia Maria teve em Santa Elisabeth um modelo de vida espiritual durante toda sua vida. Leu todas as obras e tudo o que se referia a ela. E todos os dias já em nosso Carmelo, víamos que lia a oração da elevação à Santíssima Trindade, composta por Santa Elisabeth, para iniciar sua oração pessoal.

Sua mãe, dona Florinda, a princípio não queria seu ingresso no Carmelo, mas vendo a decisão de sua filha, logo cedeu. Porém, com a condição de que ela esperasse por um ano. Neste período, sendo recém-formada em Magistério, Sophia lecionou no Colégio Imaculada. Empregava seu dinheiro para ajudar em casa e também as crianças pobres da catequese. E, dentre estas obras de caridade, ela com simplicidade e alegria custeou a passagem de uma jovem que também ingressaria no Carmelo de Belo Horizonte.

Durante esta fase de espera, sua mãe concedeu-lhe ficar em um quarto separado de suas irmãs, onde ela teria mais privacidade para suas orações. Conta-se que quando ela foi para o Carmelo havia na parede do quarto, próximo ao crucifixo, a marca de sua mão, pois ela apoiava sempre para beijá-lo. Durante este período, ela fez de forma privada o voto de virgindade e procurava exercer da melhor forma possível seus compromissos, tanto no trabalho, como com os amigos ou junto à família.

Devido ao acesso a biblioteca das irmãs do colégio, ela teve à sua disposição bons livros de espiritualidade, incluindo a vida dos santos. Estas leituras foram forjando o seu ser para a senda da santidade. Fazendo um projeto pessoal para este ano de preparação e mostrando para seu diretor espiritual, este anotou no final: “Pouco tempo para diversão; o arco muito tempo retesado arrebenta”.

Como uma alma aberta à ação de Deus, ela foi colhendo estes ensinamentos para depois conduzir com maestria aquelas almas que no futuro seriam a ela confiadas, pois uma marca forte dela, já na sua fase de maturidade humana e espiritual, era a suavidade e a fortaleza!

Entrada no Carmelo Nossa Senhora Aparecida

O tempo passou e chegou o grande dia! Sua entrada no Carmelo foi marcada para o dia 12 de dezembro de1950. Era o ano Santo Eucarístico. Ela deixou seu lar no dia 8 de dezembro e sempre mencionava isto com amor, pois era a solenidade da Imaculada Conceição.

No dia 12, festa de nossa Senhora de Guadalupe, Sophia Maria atravessa os sagrados umbrais do Carmelo. Madre Gema e toda a comunidade do Carmelo Nossa Senhora Aparecida, em Belo Horizonte, receberam-na com grande alegria.

Seguiu seu postulantado com as adaptações próprias ao novo estilo de vida. Em 17 de junho do ano seguinte ela recebe o Santo Hábito e lhe é dado o nome de Irmã Maria Angélica da Eucaristia. Embora ela desejasse receber o nome de Elisabeth da Trindade, este não lhe foi concedido, fato que ela aceitou docilmente, abraçando seu novo nome como missão concedida por Deus, como de fato se pode constatar. Ela foi “anjo” na vida de tantas pessoas, por sua imensa caridade e grande adoradora de Jesus Eucarístico.

Era costume no Carmelo para o dia da vestição religiosa, a postulante se vestir de noiva. Geralmente a família providenciava o vestido. Nesta ocasião, sua família não estava muito bem financeiramente ao que a postulante sugeriu para a Madre Gema que ela poderia usar o vestido de noiva de sua irmã Conceição. A Madre Gema que sempre zelava por suas filhas disse que não. Ela fazia questão de que o vestido fosse novo.

Segue-se um pequeno relato da nossa querida irmã Margarida do Carmelo de Belo Horizonte: A Madre Gema queria que o tecido usado para o vestido de noiva das irmãs fosse o melhor possível, pois posteriormente era usado para a confecção de paramentos. A família da postulante Sophia Maria doou uma quantia que não era suficiente, mas a costureira que era muito amiga da Madre Gema (uma das mais conhecidas da cidade) disse que faria o vestido assim mesmo e que ela não se preocupasse com o valor restante. A costureira fez o vestido.
 

Madre Maria Angélica

Naqueles dias, um menino bateu à porta da costureira e entregou um envelope dizendo que a Madre Gema havia mandado. O menino era muito bonito e loiro. Quando a costureira abriu o envelope, tinha o valor exato do restante do dinheiro que faltava. Esta, perguntou a Madre Gema porque mandou o dinheiro, já que ela disse que não precisava. Contudo, a Madre disse que não mandou menino e nem dinheiro. Nunca se soube ao certo quem foi o misterioso menino lindo que pagou seu vestido.

Madre Maria Angélica

Durante o período do noviciado, sua saúde ficou bem fragilizada. A Madre Gema, com muito esmero, teve o cuidado e discrição de providenciar os tratamentos necessários. Posteriormente, Nossa Mãe nos contava com admiração deste cuidado da Madre Gema, de como ela teve a discrição de não alarmar as demais irmãs, pois um requisito para continuar o noviciado era a saúde. Ficando constatado que não havia nada grave, ela seguiu seu período de noviciado.

Terminado o período do noviciado fez sua primeira profissão no ano de 1952 e antes da profissão Solene foi designada para ajudar no noviciado como anjo, auxiliando a Madre Gema na formação.

No dia 27 de julho de 1955 ela fez sua profissão Solene e no dia 6 de agosto teve a cerimônia pública de “velação” (recebia o véu preto de professa Solene). O sacerdote iniciou a homilia com as seguintes palavras: “Vim imolar ao Senhor...”, e partindo desta frase explicou a consagração como uma imolação total de todo o ser a Deus.

Seguiu fervorosamente sua vida de consagrada sempre disponível para os ofícios próprios do mosteiro. Foi enfermeira, sacristã, e posteriormente fez parte do conselho assumindo o economato.

Já tendo um bom caminho como professa solene, ela se integrou no grupo fundador do Carmelo de Olinda. Este foi para ela um período de grande purificação. Sua saúde ficou muito abalada. Ela ficou em Olinda por aproximadamente três anos e, não tendo mais condições de continuar, retornou ao seu Carmelo de Belo Horizonte. Sempre agradecida, nos dizia que nos momentos certos, o Senhor sempre lhe enviava bons sacerdotes que como representantes de Deus lhe indicavam a direção a tomar. Retornando ao Carmelo ela seguiu com o mesmo zelo e fervor sua vida de carmelita descalça.

Ainda da nossa querida irmã Margarida do Carmelo de Belo Horizonte colhemos este testemunho: “podia se dizer da irmã Maria Angélica o que se diz de Santa Elisabeth da Trindade: uma alma de silêncio e recolhimento, de vida interior. Ela cativava muito as pessoas por seu jeito de ser”.

Fundação do Carmelo Maria Mãe da Igreja e Paulo VI em Montes Claros

Em 1976, um sacerdote Jesuíta espanhol, padre Henrique Munaiz Puig, com o apoio de Dom José Alves Trindade solicitou a fundação de um Carmelo em Montes Claros. O pedido foi aceito pela Madre Gema, que nomeou a Irmã Maria Angélica para assumir como responsável esta fundação. Ela no principio relutou para aceitar esta missão e levando o pedido para a oração disse que acolheu com espírito de fé, como se escutasse do Senhor: “volta para sua terra”! O grupo foi formado por quatro irmãs do Carmelo de Belo Horizonte, duas do Carmelo de Três Pontas e uma postulante iniciaria seu postulantado no dia da fundação.

O dia esperado ficou marcado para o dia 8 de setembro de 1977. A população as esperava com fervor, pois foram sabiamente preparadas para o valor e a importância da presença orante de uma comunidade contemplativa. Além do nosso Bispo Dom José Alves Trindade e do Pe. Henrique, estavam presentes o frei João Bontem, OCD e inúmeros sacerdotes. Terminada a cerimônia leu-se o decreto da fundação e ficou estabelecida desde então a clausura, espaço onde as irmãs já poderiam se entregar a vida orante intercedendo por esta Diocese e por toda a Igreja.

As irmãs residiram em uma pequena casa provisória adaptada, aonde como alicerce do sólido edifício das que viriam não lhes faltavam ocasião de pequenos e grandes sacrifícios. Nossas irmãs contam que além da casa ser limitada, quando chovia molhava dentro e fora, mas como verdadeiras filhas de Teresa, elas vivenciaram este período com grande serenidade e alegria; não obstante os inúmeros desafios. Nossa Mãe em tudo atenta e presente sem deixar faltar o necessário para a sólida formação das irmãs. Observava as necessidades do corpo e da alma; muitas vezes tendo que renunciar a si mesma até naquilo que lhe seria primordial.

Desde o inicio, a irmã Maria Angélica foi carinhosamente chamada pelas irmãs, de Nossa Mãe, seguindo a tradição do Carmelo teresiano e em pouco tempo, em função de sua bondade e generosidade, a maioria da população montes clarenses a chamaria filialmente da mesma forma.

Como boa mãe e vendo os desafios de continuar naquela casa provisória ela não mediu esforços para que se iniciasse o mais rápido possível a construção do mosteiro. A pedra fundamental foi lançada no dia 19 de março do ano de 1978, dia de nosso querido Pai São José, data primorosamente escolhida por ela como ilustre filha de Santa Teresa.

Nossa Mãe e o nosso saudoso capelão Padre Henrique se dedicavam juntos nesta obra, sem nenhuma condição financeira. Dom José Alves Trindade e Padre Henrique, antes da chegada das irmãs, tiveram a feliz inspiração de criar um grupo de apoio: o grupo Lisieux, constituído por senhoras da sociedade que se reuniriam uma vez por semana para convivência, oração e confecção de trabalhos manuais para angariar fundos para construção e manutenção das necessidades do mosteiro. Grupo sólido e bem organizado que ainda hoje existe.

A construção do nosso Carmelo foi um trabalho árduo, movido unicamente pela fé, pois não havia condições financeiras para tal empreendimento. Mas como toda obra de Deus, e não dos homens, a construção do mosteiro foi adiante.

No ano de 1980, o dia 14 de setembro marcou a trasladação das irmãs da casa provisória para o mosteiro definitivo. Estava semiconstruída apenas uma ala onde as irmãs adaptariam para morar. Na véspera do grande dia, um amigo e benfeitor do Carmelo olhou para Nossa Mãe e lhe disse: “Madre, vamos inaugurar o quê?” Tal era o estado que ainda se encontrava o trabalho. Foi feito um mutirão e na hora marcada tudo estava convenientemente organizado para o evento.
Nossa mãe seguiu seu trabalho com inúmeros sacrifícios que foram surgindo ao longo do caminho mesclado com conquistas e alegrias. A comunidade começou a crescer. As primeiras irmãs começavam a fazer os votos solene e os fiéis da Diocese cada vez mais acorriam ao nosso Carmelo para um aconselhamento com Nossa Mãe, um pedido de oração, uma partilha de algum sofrimento e sobretudo para a participação na celebração Eucarística. Os fiéis intuíam que em nosso mosteiro visivelmente estava presente dois destacados servos de Jesus: a Nossa Mãe e o Padre Henrique.

Enfim, a comunidade ia se consolidando. As irmãs contam que por ocasião da construção era tudo muito difícil, e alguns milagres visíveis aconteciam. Em certa ocasião, a irmã provisora ao dividir umas laranjas para colocar para a comunidade, observou que faltava uma e não havia outra fruta. Chegou uma criança, tocou a campainha do Carmelo e disse para a irmã porteira: “Eu vim trazer esta laranja para as irmãs.” Era a laranja que faltava...

Neste período, devido aos intensos trabalhos da construção e formação das que chegavam, Nossa mãe esquecia-se totalmente de si, virtude que jamais abandonou. Sempre pronta para escutar, acolher as irmãs e aqueles que a procuravam e que sempre foram em número expressivo.

Fundação do Carmelo em Bonfim-BA

No ano de 1992, o nosso Carmelo assumiria sua primeira fundação a pedido de Dom Jairo Rui Matos da Silva, Bispo de Senhor do Bonfim, Bahia. Esta fundação foi assumida com carinho pela comunidade que, na época, constava com vinte e duas irmãs. Como toda fundação, esta teve suas alegrias e seus sacrifícios, aspectos do mistério pascal que recaíam sobre o coração de Nossa Mãe. Marcou-se a data para o envio das irmãs, no dia 1 de janeiro de 1994. Ela acompanhou o inicio e ofertou todo apoio necessário.

Relacionamento com outros Carmelos

No ano de 1998, o Carmelo de Haifa, na terra Santa, pediu ajuda para o nosso Carmelo. Nossa Mãe colocou o pedido para a comunidade e uma de nossas irmãs foi ajudar. Foi à primeira irmã brasileira a sair para esta missão. Depois foram também outras de nossas irmãs para o Carmelo de Jerusalém. Todo aquele que abre caminho sofre os embates iniciais. Este sacrifício também recaiu sobre Nossa Mãe que, mal compreendida por algumas pessoas, foi criticada como exportadora de monjas. Mas em paz, seguia seu percurso. Não era de falar muito, de contestar e diante das críticas, geralmente se calava e quando necessário respondia, mas sempre com sabedoria e humildade. Possuía as devidas licenças, inclusive do Padre Geral, para tais empreendimentos. O Padre Geral pediu que ajudasse também os Carmelos da Espanha. Houve algumas tentativas. Nossa Mãe colocava o pedido na comunidade respeitando inteiramente a liberdade de cada uma, e em alguns casos ponderava se seria conveniente. Hoje este intercâmbio é comum entre os Carmelos.

Criou-se uma relação de amizade entre nosso mosteiro e os da Terra Santa, bem como alguns da Espanha. No ano de 2002 aproximadamente, Nossa Mãe havia terminado um período de três triênios consecutivos e recebeu da madre do Carmelo de Jerusalém o convite para passar três meses lá, para descansar. Toda a comunidade a incentivou. Ela teve a oportunidade de fazer com as irmãs do Carmelo de Jerusalém uma peregrinação no Monte Sinai.

Conta-se que ela fez questão de percorrer todo o trajeto a pé, já com seus quase 80 anos. Outras irmãs bem mais novas do que Nossa Mãe não deram conta e terminaram de fazer o percurso montado em camelos, transporte apropriado para o ambiente do deserto. Nossa Mãe, movida por sua fé, mesmo sentindo o peso do caminho, decidiu e ficou firme em fazê-lo todo a pé, e assim o fez com a graça de Deus.

Ela não pôde ficar os três meses em Jerusalém, pois a madre do Carmelo de Valladolid, na Espanha pediu para que ela passasse por lá para conhecer a realidade. Como nossa Santa Madre Teresa, dividiu o determinado tempo e lá se foi. Voltou renovada em sua fé e em nosso carisma. Ela sempre foi muito devota de Nosso Pai Santo Elias e teve a graça de conhecer os lugares aos quais a tradição remonta a presença do grande profeta. Outra grande dádiva para ela e para nós foi a sua passagem pela Espanha. Foi marcante para ela o contato com os Carmelos fundados por nossa Santa Madre Teresa e percebíamos nela um transbordar no amor a nossa Ordem, que se irradiava para todos os que dela se aproximavam. Providencialmente a Nossa Mãe chegou à Espanha durante a celebração da novena de nossa Santa Madre Teresa, havendo pelas ruas da cidade um enorme cortejo com uma belíssima imagem da Santa. Foi consolador para seu coração “tal recepção de nossa Grande Mãe Teresa de Jesus”!

Em 2009, Nossa Mãe foi com a então coordenadora da Associação ao Carmelo de Montevidéu, acompanhando uma vocacionada. Esta jovem se preparava para ingressar no nosso mosteiro, mas aceitou o convite de ser inserida na comunidade do Carmelo de Montevidéu, que naquela ocasião fazia parte de nossa Associação. Depois, foi também uma de nossas irmãs para dar uma pequena ajuda, por apenas um ano. A generosidade de Nossa Mãe para com as irmãs de outros Carmelos era sem medida, e sabemos que muitas poderiam dar o seu testemunho. Ela não media esforços para ir ao encontro das necessidades das que a procuravam.

Fundação do Carmelo em Coronel Fabriciano-MG

No ano de 2000, o então Arcebispo Dom Geraldo veio com o Bispo de Coronel Fabriciano pedir uma fundação. À princípio houve uma resistência, mas depois a comunidade aceitou. Como toda obra de Deus, esta não foi diferente, houve muitos desafios. No dia da fundação percebemos que Nossa Mãe estava com vesículas e manchas pelo corpo, além de febre. Sugerimos que ela não acompanhasse as irmãs, pois a viagem era longa. Porém, ela não aceitou. Participou de toda cerimônia. Após o retorno foi diagnosticada com dengue. Ela sem olhar para si, mais uma vez nos deixou este testemunho.

Bodas de Ouro

​Neste mesmo ano(2000) ela completava 50 anos de Carmelo e a comunidade desejou comemorar. Ela, para desviar a atenção disse: vamos no mesmo dia fazer a consagração da nossa capela. Ela, com uma de nossas irmãs, fizeram toda a diagramação do livro para a cerimônia e como sempre estava muito presente em tudo; não só para coordenar, mas para ajudar de maneira efetiva no que precisasse.

 

A cerimônia foi realizada no dia 12 de dezembro do ano 2000. Esteve presente o Arcebispo Dom Geraldo Magela de Castro, frei Pierino - OCD, frei Antonio Pierim - OCD, (este último cantou lindamente a ladainha); e inúmeros sacerdotes de nossa arquidiocese. A família de Nossa Mãe esteve presente e uma grande multidão de fiéis. Foi uma cerimônia lindíssima e ao partilhar sobre este dia ela escreveu: “...as festas no Carmelo são como que um prelúdio do céu...”

Um dos sacerdotes comentou que a cerimônia foi linda, mas, ofuscou a celebração das bodas de ouro... ao que ela respondeu com um sorriso. Sabíamos que foi esta a sua intenção.​​​

Madre Maria Angélica

Vida em comunidade

Assim era Nossa Mãe com um olhar todo voltado para o essencial. Como boa discípula de Elisabeth da Trindade, ela não empregava seu tempo em coisas secundárias, tudo ela reportava ao mistério salvífico do Deus Trindade! Nas coisas mais simples, sabia lançar um olhar de fé que ultrapassava o aqui e agora, e assim buscava conduzir as almas a ela confiada.

 

​​Na sua missão de conduzir as irmãs era suave e forte. Como verdadeira filha de nossa Santa Madre Teresa, não era de “apertar” na prática de penitências e sim nas virtudes. Nas suas exortações comunitárias, o tema do Silêncio como predisposição para o encontro com Deus e o da caridade fraterna estavam sempre presentes. Conhecia bem cada uma de suas filhas e como tratá-las. 

 

​Embora Nossa Mãe tivesse uma constituição frágil, ela tinha boa saúde. O único problema que às vezes a acometia era bronquiectasia, mas devido ao tratamento era bem controlado.

 

Ela mesma como priora se incluía no ofício da casa, geralmente na pintura ou ajudando na portaria. Sempre dava testemunho discreto de caridade ajudando em algum trabalho. Era assim no ofício da sacristia. Geralmente a irmã encarregada prepara o altar já antes de laudes e Nossa Mãe fazia questão de auxiliar neste pequeno trabalho e em tantos outros, como: arrumar o refeitório, ajudar a molhar os jardins, a presença na louça. Todos estes pequenos trabalhos ela exerceu até o final de sua existência.

 

Nossa Mãe sempre demonstrava grande humildade. Diante de seus pequenos erros, ela não hesitava em pedir perdão. Isto em todas as situações, como nos relacionamentos, nas divisões dos trabalhos da casa, em alguma reforma na estrutura da construção e se o resultado não era bom, ela pedia perdão com uma frase muito sua: Perdoem-me, errei tentando acertar!

Ela não era de falar sobre suas limitações próprias, embora sabíamos que tendo levado uma queda no ano de 1994 e achatado algumas vértebras da coluna, estas lesões lhe causavam dores, que ela oferecia silenciosamente.

No ano de 2014 aproximadamente, devido a um desgaste no joelho ela foi submetida a uma cirurgia. Ela ficou usando bengala por um período, depois com os tratamentos e muita força de vontade e sobretudo a graça de Deus, ela retornou a andar sem nenhum apoio.

 

Por esta ocasião ela cogitou, aconselhada por alguns médicos, a possibilidade de colocar uma prótese no joelho. Questionada por uma irmã se valeria a pena, pois ela já estava andando sem bengala, e tendo em vista que uma cirurgia era sempre um risco, ela respondeu: “sinto muita falta de ajoelhar diante de Jesus e o médico disse que poderei ajoelhar após a prótese. Sinto falta de me prostrar diante Dele.” Esta cirurgia não aconteceu. Ela preferiu acolher a opinião das irmãs e renunciar a possibilidade de retornar a ajoelhar.

Últimos anos

Nos últimos anos, o tema de despedida era frequente em seus lábios. Dizia abertamente que sabia que sua missão já estava cumprida e falava com tranquilidade. Em 2014 foi o seu ultimo triênio como priora (ela já havia pedido antes para não exercer esta função, mas a comunidade não aceitou). Terminado este período, ela ficou como vice priora e mestra de noviças. Com insistência por parte da maioria da comunidade, que a vendo tão bem, desejou aproveitar o máximo de seus dotes, e ela retribuiu sem medidas. Dentro deste tema de sua partida ela dizia: “se posso pedir a Jesus alguma coisa para mim é não ficar dependente em uma cama ou sem memória, mas aceito o que Ele me enviar!”

No mês de abril ela esteve em Belo Horizonte para uma revisão com o oftalmologista. Visitou sua irmã que estava muito debilitada e com sua costumeira caridade procurou ser aquela presença amiga e suave em meio ao sofrimento da irmã mais velha.

No mês de maio ela fez seu retiro pessoal, que neste ano foi durante o retiro de pentecostes. Neste mesmo mês comemoramos o dia das mães, fazendo uma homenagem para ela durante a recreação. Fizemos um “conserto musical” onde toda a comunidade participou. Selecionamos uma coletânea de músicas que sabíamos que ela gostava e com todos os instrumentos, órgão, violino, flauta Madre Maria Angélica da Eucaristia, ocd 26 transversal, flauta doce, violão, castanholas, pandeiro e outros. Seus olhinhos brilhavam de alegria. No final, ao agradecer ela disse: “está tão bonito que até parece ser meu último dia das mães! Isto é o que Deus espera da comunidade: que cada uma dê a sua nota e que todas em harmonia cantem desde aqui os louvores à Santíssima Trindade. Nenhum instrumento e nenhuma irmã é melhor ou tem o som mais bonito. Estão todas a serviço e quando vamos no ritmo do Divino Mestre a harmonia é perfeita!”

No dia 31 de maio do ano de 2018, antevésperas de seu falecimento, foi dia de Corpus Christi. Este dia passamos em adoração, e ela acompanhou com fervor! À tardinha ela foi dar uma volta nos jardins. Uma irmã foi ao seu encontro e ela começou a mostrar as plantas dizendo o nome e a origem. Chegando próximo a uma pequena árvore, disse para a irmã: “Olha este aqui é um pau Brasil. Não deixem cortar. É bom que as outras saibam, pois podem cortar sem saber!” Parou por alguns instantes contemplando a natureza, com olhar pensativo e disse: “Está tão bonito aqui!” A irmã a chamou para entrar, pois já estava tarde.

Neste mesmo dia, festa da Visitação, temos o costume de fazer a coroação de Nossa Senhora no final do recreio. Sendo Nossa Mãe a vice priora, ela pediu para algumas irmãs auxílio para preparar a cerimônia. Nossa Mãe sempre gostava de envolver a comunidade na participação das coisas. As irmãs pediram para que Madre Maria Angélica da Eucaristia, ocd 27 ela colocasse a coroa em Nossa Senhora, ato feito com notável piedade. Ao terminar a cerimônia, ela chamou uma das irmãs e agradeceu a ajuda. E acrescentou: “te agradeço por ter ajudado na cerimônia e por tudo o que você faz por mim e pela comunidade!”

Na primeira sexta-feira do mês, (1-6-2018), tivemos a presença do confessor da comunidade e ela confessou! Esta seria sua última confissão, aproximadamente umas 20 horas antes da sua partida!

No recreio da noite, ela comentou a situação do país. Naqueles dias estava tendo a greve dos caminhoneiros e ela disse: “Meu Deus é tanta desigualdade no Brasil, tanta corrupção! Os pobres cada vez mais pobres e ninguém faz nada! Sei que Jesus já deu sua vida por nós, mas se eu pudesse eu daria minha vida por um país melhor, mais humano.” Ela se referia ao caos da política e da situação da greve! Certamente sua oblação foi recebida por Deus. No sábado ela levantou como de costume para Laudes, acompanhou em tudo a comunidade, inclusive na partilha do Evangelho. Neste dia ela não falou, ficou escutando. Depois foi dar formação para as noviças. No final da aula as abençoou, avisou que ia sair e disse a frase: “Na Eternidade seremos insaciavelmente saciados”. Como de costume rezou ao sair e partiu.

Ela tinha a intenção de levar a Juliana Coli para tirar umas fotos no terreno que ela ganhou como doação de sua família, pois desejava que ali se realizasse um projeto para crianças autistas. No trajeto para o local, ela comunicou com nosso Bispo Dom Justino, enviando uma mensagem. A Nossa Mãe sempre que saía de carro fazia inúmeras vezes sobre si o sinal da cruz. Não foi diferente naquele dia! Assim preparada por uma vida santa, com o sacramento da confissão recebido, serena e feliz, em meio a uma manhã linda de sábado, primeiro sábado do mês de junho. Num abrir e fechar de olhos, nossa Senhora do Carmo, nosso Pai São José e todos os Santos do Carmelo vieram buscá-la. A semelhança de nosso pai Santo Elias foi arrebatada como num carro de fogo. O caminhoneiro vinha em alta velocidade ultrapassando outra carreta e bateu no carro em que ela estava no acostamento. Ela faleceu na hora e não temos dúvidas que intercedeu pela vida das que estavam com ela no automóvel! Um grande consolo foi que seu corpo ficou intato, sem nenhum machucado. O lugar no carro mais preservado era o dela, Madre Maria Angélica da Eucaristia, ocd 28 porém era chegada a sua hora! Seu desejo foi atendido: faleceu lúcida, trabalhando e com os sacramentos.

Com grande comoção e caridade, inúmeros sacerdotes, mais de cinquenta estavam presentes no momento das exéquias. Houve várias missas de corpo presente! Os nossos Bispos: Dom José Alberto Moura e Dom João Justino de Medeiros estiveram presentes neste momento de dor para a comunidade com solicitude paternal, ajudando a organizar o necessário! Ela foi sepultada na segunda feira, 4 de junho às 10 horas da manhã, na cripta de nosso Mosteiro!

Vários Carmelos fraternalmente se fizeram presentes, seja com a presença de alguma irmã ou com as orações. Uma multidão de fiéis acorrera ao Carmelo; afinal Nossa Mãe era muito conhecida por sua fama de caridade e santidade.

Dias atuais

Após sua partida, podemos “ver” com os olhos da fé sua presença discreta, suave, amável em tudo. Ainda são fortes seus “passinhos de algodão” presente em todas as situações da comunidade.

 

No dia 19 de março, o arcebispo da nossa Arquidiocese de Montes Claros, Dom José Carlos de Souza Campos, recebeu da Santa Sé o nihil obstat, autorizando oficialmente a abertura do processo diocesano de beatificação da Madre Maria Angélica da Eucaristia, Nossa Mãe. A partir deste momento, ela passa a ser chamada Serva de Deus.

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